sábado, 7 de novembro de 2009


"Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé
- De Ariana para Dionísio"

acabo de descobrir e deliciar-me com a poesia sonora de Hilda Hist, por Zeca, na voz de Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria. Belíssimo, issimo, issimo, issimo...


http://www.youtube.com/watch?v=8fWgQK-h2Ew

.
(foto: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-poesia-sonora-de-hilda-hilst-no-baleiro-de-zeca)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

chegou o dia. aquele dia, que parece mais um, de sol sobre o asfalto, a conduzir os passos para o trabalho, o olhar para o nada, os sonhos para o infinito. chegou o dia. pela janela nada induz que seja este o dia do futuro. falta apetite para tomar a estrada. o futuro, quando chegará? falta apetite para o peso dos verbos e a infindavel variedade de assuntos que precisamos opnar, debater, criticar e escrever. sim, escrever é um ato de tristeza e solidão. falar n~ao. (meus acentos se negam a contribuir com esta ret'orica falida). os dedos, com unhas pintadas de vermelho, navegam sobre as letras e acalmam o peito, indiferentes ao conjunto das palavras mas felizes por se verem trabalhar. os carros sobem a bahia e eu descê-la hei, em poucos minutos, na contra-mão da velocidade. (num barquinho imaginário). chegarei ao trabalho. e no trabalho a angústia que nos persegue: quantos meninos se matarão enquanto descansaremos no fim de semana? o mundo dos homens é o mundo das armas. em recife, no rio e aqui, bem perto de nós. na colômbia, em nova york, na somália ou no afeganistão. a morte define o silêncio e impede a pronúnica de uma nova poesia. a vida é mais simples em conceição do mato dentro. o sol torna mais branca a cortina da janela, mas não mais claras as idéias e menos frios os sentimentos. basta o sol para aquecer toda a reallity? o que você quer, emprestando tanta melodia ao mundo, infiel ao dicionário? o que você perde restrigindo a vida à soma do salário que recebe no quinto dia útil? o que você é resume-se ao que você faz? a realidade é bem maior do que a circularidade da terra, mas aqui mesmo no planeta água o homem empresta seu corpo ao fogo e tudo isso acontece independente de você, por que o que, ora bola, você poderia fazer, além de compor essas constrangedoras linhas? você espera que o futuro chegue, para te tirar do lugar. da fila do banco. da fila do desemprego. da fila da compra do ingresso para o show de chico. mercedes morreu. girassol morto, mas ainda de pé no centro do jardim. você olha o jardim, olha o girassol e teme que a morte se alastre às margaridas ao seu redor. a morte é contagiante. neste minuto um menino aprende a segurar uma arma. e o que você tem com isso? morar numa ilha talvez resolvesse todos os seus problemas, te afastasse dos seus pensamentos sobre o mundo. mas basta ler drummond para que o mundo caia sobre o seu colo.

"Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles. Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação. Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando... Então hoje não tem crônica."

domingo, 1 de novembro de 2009

.

la luz desciende de la casa, pero la pantalla blanca es suficiente para tocar los sueños, esos que sólo vienen cuando el cuerpo alcanza un estado de embriaguez, que no se logra con el vino, pero con la fiebre causada por el sentimiento de lluvia. en su cuarto, las primeras gotas de agua penetran sus poros. el olor de la lluvia ahoga la piel e deja el cuerpo húmido como las nubes. este cómodo sofá no es un sueño, pero una mediocre realidad. el mar no existe de este horizonte, pero montañas, en la noche invisibles, como también los seres que habitan toda la construcción - la mujer en el apartamento siguiente te hace pensar... ¿el mundo es el mismo para ella y para vosotros? mas tarde en su cuarto, un hombre o una mujer pueden hacer que te olvides de ti (con sus manos). tu no quieres pelear. no quieres. tu quieres escuchar hasta la voz del mar, pero el universo está lleno de gente que grita. el universo no puede caer. la vida es más grande que sus ojos y mucho mayor que su mar. mañana es un día de fiesta pero el hambre no elige día. el hambre de pan y vino, el hambre de sueños y amor. en días como este, el hambre es mayor porque las calles están desiertas. lo desierto para nosotros no tiene fin. no tiene fin el desierto. no tiene fin. y tu no sabes qué hacer con lo que no tiene fin.
.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


"Traga-me um copo d'água, tenho sede"

sábado, 24 de outubro de 2009

a voz de drummond

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

.
.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


e das sombras se fez o nó(s)...
.

domingo, 18 de outubro de 2009

cinema


.
"_ Eu me pergunto porque estou aqui neste lugar onde você escolheu nascer.

_ Escolhi?

_ Eu vim aqui para me separar de você, mas há coisas melhores para fazer. Eu vim para fazer barulho e é o silêncio que vence."
.

(La Pointe Courte, Agnès Varda)
[este filme guarda a beleza dos raros!]
.
.
.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

.
era uma vez o menino fazedor de títulos e a menina que cabia no espelho,

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

.

A moça observa o bar. Está na mesa com alguns amigos, olha ao redor, conhece poucas pessoas ali, como bem poucas em qualquer lugar do planeta. Pensa nas suas relações, na sua intimidade com os outros, sabe-se só. Relaciona-se de forma superficial com as pessoas, poucas entram nela; é um ser estranho no mundo, gosta mais da solidão, uma opção pelos livros - tem gente que veio ao mundo para viver, outros vieram para ler, pensa. Esta pouca disposição vem também da dificuldade em encontrar palavras, talvez o hábito de escrever tenha lhe condicionado a certa dificuldade em escolhê-las, por entender difícil dizê-las, por entendê-las tantas vezes inadequadas, inexatas, inexpressivas, por não querer banalizá-las, por querer guardá-las; acha as conversas superficiais e egocêntricas, se indispõe facilmente num diálogo por sentir deparar-se com limites e vaidades de entendimento; pensa que somente conversas despretensiosas são válidas, assim, prefere o silêncio, prefere o percurso solitário às pontes que conduzem às prisões; por isso tem e alimenta poucas relações, por isso sabe-se e gosta de sentir-se arredia, pouco percebida; assim escuta, grava e guarda os acontecimentos com o distanciamento necessário para uma percepção que, se jamais neutra, um pouco menos integrada à sua pele. Sente haver uma redoma entre si e o mundo, poucos são os acontecimentos que a absorvem e a derretem, poucas são as pessoas com a capacidade de fazê-la dissolver. Mas olha o bar, olha o homem e pensa querer um pouco disso agora, um pouco de pertencimento, um pouco de entrega despretensiosa, um pouco de alienação de si no mundo, no outro. Há certo instante da noite eles se integram à mesma mesa, compartilhando amigos. A mesa entre eles, muro horizontal, impõe uma distância plana, um rio emadeirado que permite, contudo, ao olhar navegar pelo espaço invisível e desabrochar-se em travessia. Existem terceiros ao redor, mas os dois têm o olhar do outro. E aos poucos surgem os primeiros grunhidos na busca da firmação de uma língua.

.

curta cotidiano

video

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


el camino

e se não fosse a literatura?
transparência, talvez?

escondida no verbo
ou ela mesma verbo?

(ela = eu + v ou v = eu + c)
v=verbo, c=carne

.

PRIMEIRA POESIA – XOTE DA PALAVRA

.

Um bom tempo se perdeu

até que retornasse aqui,

como se houvesse rompido cosigo

negando o que pode existir de bom em si.

.

Um bom tempo

um bom tempo se perdeu

.

agora uma salsa preenche de musica o que escreve

mariposa de lindos colores

e uma tela de luz branca – olho de frente aos seus olhos

se estende como um tapete persa às suas mãos.

.

Enquanto seus pés dançam salsa

suas mãos desfilam com o vermelho estendido aos dedos

sangrando de negro a folha branca.

.

Enquanto seus pés dançam e desfilam

pés que não são pés

são mãos

são mãos,

como são dedos,

como são palavras

caminando por las calles

.

.

poesia 2. DO ENTENDIMENTO

Entendo

que a poesia,

poesia poesia poesia

.

.

POESIA 3. DO DESENTENDIMENTO

- ele te deixou.

.

.

.

o mundo passou rodopiando, quase estrebuchou. é preciso que não o habitemos para que ele sobreviva? o mundo ou nós, nós em parte dele, o fim de nós ou fim do mundo. e daniela do edifício máster? me pergunto o mundo, o mundo, o que faz d’ela, em seu quarto em copacabana? copacabana, bacana, mas nós do edifício máster... copacabana dos corredores escuros.

.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“Donne dizia que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere ao patíbulo, e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: depertar o homem que viaja rumo ao patíbulo.” (Ernesto Sábato)

.

“Seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressa-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscar até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo, e jamais se contentar com o aproximativo, nem jamais recorrer a fraudes, mesmo felizes, a palhaçadas de linguagem para evitar a dificuldade.” (Maupassant)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


morre mercedes. e um pedaço de mim chora. e outra parte canta. desde quando sua voz pela primeira vez me arrebatou, ela vive em mim. me acompanha desde a adolescência, expressando em melodia minhas angústias de militante em movimentos políticos e sociais. ouvi-la, desde sempre, já era vivenciar a utopia, como se sua voz não cantasse um lugar no futuro - ouvir sua voz já é vivenciar o horizonte. quando estive com os pés em Machu Picchu, la cigarra tocou em meus ouvidos com o olhar perdido no vale de montanhas, e ouvi-la dentro de mim, ali, fez-me reviver o massacre dos incas, mas além, um canto oníssono de toda latinidade, de forma atemporal. tornei-me um pouco niilista com a militância, mas um pouquinho mais sensível à música - minha paixão pela luta que ela convoca, cantando a poesia de poetas e poetisas espalhados pelas terras deste lado de cá das américas, segue sempre como um batismo novo. nunca me canso de ouvi-la, mercedes. você é parte de mim. abaixo, cancion con todos, letra de Tejada Gomes, que me faz chorar muitas vezes, ao vê-la cantar. salve, salve, salve, querida mercedes, amada mercedes, companheira mercedes... um soluço no mundo, em saudação à sua partida. não acredito em paraíso, mas no fato de ter você contribuído de forma viceral para fazer-nos um pouco melhores, mais próximos ao projeto de humanidade. então é aqui, entre nós, que viverá para sempre, entre os imortais.

www.youtube.com/watch?v=icrCSlBGkl0

Salgo a caminar
por la cintura cósmica del sur,
piso en la región,
mas vegetal del viento y de la luz;
siento al caminar
toda la piel de América en mi piel
y anda en mi sangre un río
que libera en mi voz su caudal.

Sol de Alto Perú,
rostro, Bolivia, estaño y soledad,
un verde Brasil,
besa mi Chile, cobre y mineral;
subo desde el sur
hacia la entraña América y total,
pura raíz de un grito
destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas,
todas las manos todas,
toda la sangre puede
ser canción en el viento;
canta conmigo canta,
hermano americano,
libera tu esperanza
con un grito en la voz.

(Letra: A. Tejada Gomez - Música: Cesar Isella)
.
.

domingo, 4 de outubro de 2009


texto de Santiago, personagem do documentário de João Moreira Sales, excepcional! quanta sensibilidade. em joão. e em santiago!
(Santiago. uma reflexão sobre o material bruto) [assistam, assistam, assistam]
.

sábado, 3 de outubro de 2009


.

ver se vê nos poros

não nos olhos

que os poros são mais postos

a sentidos

.

.........................................................

.

um corpo vazio

ocupa um lugar

o lugar do ar

o lugar da água
o lugar do horizonte

a dor é um lugar


sombrio

vazio

e cheio de ar

dá para respirar

o ar vazio de um corpo
está cheio de horizonte

aquilo que no ar ocupa um lugar,
aquilo,
a dor,
está cheio de vazio

o vazio ocupa o lugar do ar.

.

...............................

.

o rio leva

o galho, o rio leva

a folha, o rio leva

o bicho, o rio leva


tudo que é leve, leva, leva


a nuvem, o rio leva?


a água - da chuva, da fonte, do balde, do cuspe, da lágrima, do gozo

o rio leva ou já é rio a água que não era e lá caiu?


chia brando um chhhiado de chuva

chama o sono, chama o canto

chama chanchã, chama, chama


o rio que chama e que leva, quando passa, passa?

o rio que passa, se é que passa

embora sempre sempre

leve a nuvem, leve o galho, leve a folha, leve o cuspe, leve o leve,


o rio doce até à foz,

quando fica salgado, deixa de ser rio?

E em qual gota terá deixado de ser doce, o rio?

o rio que se foi deixando,


se deitando

se deitando

se deixando a(o) mar


.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

(não caibo na palavra felicidade). ela é excessiva. sou rabugenta. estou fora do projeto d "os felizes". jamais me incluí. jamais me incluirei. outsider. para sempre, para sempre.

auto-retrato

ou = a palavra melancolia

brincando de colagem em cordas...
[ou tecnicamente , customizo violões]




















































curvas e sombras no meu habitat.
numa noite d'um dia meio cinza, feito morno.
guerra e paz, amor e feijão.



domingo, 27 de setembro de 2009

"[...] a amizade nunca foi, aliás, aquele sentimento integral a que aspiramos. Somos amigos fracionários, que buscamos um no outro, não o indivíduo, mas certo aspecto dele. Faz-me isto pensar que, no geral, os amigos não nos vêem como a um ser indiviso, mas ao contrário, nos fragmentam. Elegem, em nós, as feições que lhes aprazem; procuram-nos em um ângulo, às vezes em uma linha, ou mesmo em um ponto apenas. E está aí, porventura, a explicação do fato de nos unirmos a pessoa de caracteres tão diversos e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres, embora haja umas que se repilam, ocorrendo, então um conflito em que prevaleceram as partes simpáticas." O amanuense Belmiro, romance de Cyro dos Anjos.
.
o sonho de ser literatura, de viver literatura, de respirar literatura e de a partir da literatura criar um novo mundo, de amores e utopias, faz refletir o que há de humano no cosmo, as frustrações sentidas e dissipadas no ar e no outro [uma camada de gazes circunda a existência e aos poucos dissipa todo o oxigênio das marés] enquanto ainda essas palavras tocam uma meia dúzia de eus, divago só, ou em forma de dois, desta pequena montanha de tijolos disposta como habitat para alguns quilos de idéias e projetos que são arquitetatos, rabiscados e compartilhados a partir de fios imaginários que cruzam os ares, para ir te encontrar aí, em outro qualquer ponto da circunferência enquanto o silêncio persiste em ser a nossa forma máxima de comunicação. tudo o que é escrito é ponte e deste percurso, um rio cruza em octogonal. mas há lembrança para além do silêncio. a memória finda cada átomo de ser e difine o corpo, o gesto, o suspiro e este olhar lacrimejado com gosto de mar. amar é bom, mas dói. viver é bom, mas dói. morrer dói. mas é bom? o que melhor define o momento em que seu peito se descobriu nu e só? paronomásia? eu que passo, penso e peço? ordenamento de estética? edificação de um novo eu? paisagismo eletromagnético? não: só o estado das cousas. ou um cão que ama trens. você é um ser que acredita no amor na justiça e no inferno? você consegue se ver sem deus? você se dispõe à solidão? está exausto ou ama muito tudo isso? mas não há com que se preocupar: cavaleiros teutônicos virão te salvar! não há velho, não há novo, a mesma repetição de sistemas. mas existe a literatura. todas as paredes estão em branco, para serem escritas. a tinta secou, mas há sangue em todas as extremidades dos membros dos mamíferos! não somos equídeos nem rinocerontes - temos cinco dedos, então avante! faça sangrar seu poema em vermelho. ou não.
.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

.

Da noite sobraram reflexos inteiros. Lembro-me que toquei seus cabelos em um certo momento ainda na rua. Os seus cabelos, para mim, tanto quanto os meus, para ele, foram desde sempre determinantes, esta atração pelos corpos que tolamente fantasiamos, que tolamente enfeitamos, este primeiro impulso pelo território do outro. Os cabelos pareceram-me sempre panos que enfeitam, talvez por isso mais tarde quiz minha nuca vazia, queria desde logo, ao perceber o quanto os meus me escondiam, despir-me.


Seguimos por ruas desertas que uivavam, em certo momento ele abrigou meus braços, silencioso por longos passos, não havia muito que dizer, os seus amigos cantavam baixinho, eu tentava me integrar, desajeitada, acabei percebendo esta característica quase intrínseca e não uma reação momentânea. Eles seguiam por uma rua extensa, não sabia onde pretendiam ir e a cada passo meu batimento cardíaco aproximava-se ao pulo de um bicho em perigo, era necessário retornar, disse isso, ele sequer ponderou, gritou um tchau aos amigos e viramos os corpos para recuar pelo mesmo caminho, sem que houvesse qualquer reação daqueles que continuaram seu canto.


Agora os pés eram quatro, olhávamos para eles como equilibristas que dependem do outro para seguir pelos ares. Sorriu, o que você está pensando, perguntou, respondi ser aquela a pergunta mais tola que alguém poderia fazer-me, ele disse que não, que era importante para ele entender o que se passava comigo, que tudo o mais dependia dos meus pensamentos, disse que pensava se ele não sentia frio nos pés. Ele parou, olhou-me, disse sim, sentia, nem percebera, num impulso sentou-se no chão e retirou da mochila uma meia que vestiu fazendo-me rir e nunca me esqueci o ridículo daquelas meias amarelo-ovo pulando para fora de suas sapatilhas trançadas.


Sentei-me à sua frente, ali mesmo, no passeio deserto da madrugada, ele retirou da mochila uma manta vermelha com estampa quadriculada me fazendo lembrar os meus vestidos de são-joão, colocou sobre os meus ombros. Pegou também um cigarro, acendeu e o tragou de forma tão intensa com os olhos fechados que me fizeram curiosa por experimentar o êxtase de quando os abriu novamente, voltando sei lá de qual paraíso. Tornei-me uma fumante compulsiva desde então, sem nunca ter conseguido encontrar aquele lugar que ele percorria sempre em sua primeira tragada.


Foi neste momento que toquei seus cabelos, quando ele abriu os olhos e os teve longamente em mim, à minha frente, em silêncio. Percebi-me molhada, foi esta a sensação que mais me surpreendeu ali, meu corpo inteiro molhado, queria beijá-lo, mas me contive com um toque em seus cabelos. Ele trouxe uma boca semi aberta vista por mim até o momento em que já se distorcia pela proximidade, fechei as pálpebras e senti seus lábios úmidos, cheios de saliva. Pela primeira vez uma boca vinha abrigar-se na minha, possuía uma língua morna, macia, deixei-me conduzir por ele até o momento em que se retirou para percorrer cada fatia da minha face, eu me sentia estriada, carne moída que despencava em pedaços, queria apenas um lugar fechado para derreter-me em paz. Pedi a ele, venha comigo.

.

domingo, 20 de setembro de 2009



dia de ir embora, ele a leva nos eucaliptos. têm apenas quinze minutos. caminham pelo bosque. ele diz num suspiro que é melhor não se tocarem. está parada de frente a ele e espera algum som novo, enquanto tenta entender o estranhamento da noite. talvez esteja acostumada a um só corpo, talvez sinta-se culpada por estar ali, talvez não sinta reciprocidade para deixar-se conduzir, talvez, mas não compartilha as dúvidas, apenas o quer abraçar. o que ele dizia para além do dito? qual sentido tirar das pedras? caminham por entre troncos. ela tenta respirar, está confusa, mas não pensa como ele. dá um tempo. olha para o alto e respira o cheiro dos eucaliptos, o sol entra até ofuscar a visão. não quer pensar, quer sentir. andam rumo a lugar nenhum. à vista, centenas de traços longos de troncos em tons de terra se estendem numa vasta dimensão, bosque de haya, de Klimt. no chão, imensas formigas carregam cones. folhas formam tapetes, algumas caem lentamente, secas de existir. há silêncio bom entre o diálogo deles. tempo de cada um se voltar a si. "mas entenda que eu não vim aqui para te reter. vim para alçar vôo. não exijo definições". faltam elementos - ainda não se conhecem. ainda não sabem apreender o não dito do dito. ainda precisam de sinais exatos para que compreendam, mas eles não sabem sê-lo ou não querem sê-lo. palavras vagas, cifradas, infladas, cantadas, como os corpos que dançam livres no mundo. sim, houve estranhamento. pensa na construção enganosa do seu imaginário. agora é necessário pisar a terra e descer do céu, reter-se ao tronco para não voar. ele a abraça por trás, como fez no dia anterior e solta letras pelos ouvidos, nela, que descem feito neblina molhando a grama sedenta do peito. de olhos fechados, sente as mãos balançarem, tal qual as árvores. falta música para tanto vento. mesmo o sol compareceu, mas falta. o mundo inteiro cabe no tamanho de um eucalipto. tudo se reduz ao eucalipto. ele a conduz ao eucalipto. voltam ao carro, ele brinca no volante, vagarosamente conduz o veículo em zigzags por entre as árvores. parece um cavaleiro errante. falta ar no mundo para respirar. ad eterno.
.

domingo, 13 de setembro de 2009


"Me colaram no tempo, me puseram

uma alma viva e um corpo desconjuntado.

Estou limitado ao norte pelos sentidos,

ao sul pelo medo,

a leste pelo Apóstolo São Paulo,

a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando,

sou um fluído,

depois chego à consciência da terra,

ando como os outros,

me pregam numa cruz,

numa única vida. Colégio.

Indignado, me chamam pelo número.

Detesto hierarquia.

Me usaram o rótulo de homem, vou rindo,

vou andando, aos solavancos.

Danço. Rio e choro, estou aqui,

estou ali, desarticulado,

Gosto de todos, não gosto de ninguém,

batalho com os espíritos do ar,

Alguém da terra me faz sinais,

não sei mais o que é bem nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía,

estou suspenso, angustiado, no éter,

Tonto de vidas, de cheiros, de movimentos,

de pensamentos" (Murilo Mendes)

.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

(foto colhida no site http://www.bhnostalgia.blogspot.com)

Lagoinha: um corpo em chamas.

.

“Adeus Lagoinha adeus

Estão levando o que resta de mim

Dizem que é força do progresso

Um minuto eu peço

Para ver seu fim”

(Gervásio Horta e Milton Rodrigues Horta)


"Governar é povoar;

mas, não se povoa sem se abrir estradas,

e de todas as espécies;

Governar é pois, fazer estradas".

(Washington Luiz)

.

Já em 1980 sambistas da Lagoinha cantavam com nostalgia as agruras sofridas por um bairro que década após década é dissolvido em asfalto, mas vive! Na memória dos seus moradores e na arquitetura das casas, muitas delas com bocas e olhos carcomidos por traças e cupins, mas ainda de pé e resistindo bravamente, mantendo viva a história deste, que pode ser considerado um dos mais antigos bairros da jovem Belo Horizonte. A Lagoinha foi citada em documento de 1711 na Carta de Sesmaria ao bandeirante João Leyte da Sylva Ortiz, quando essas montanhas ainda eram conhecidas por Curral D'el Rey.

.

As casas que compõem o conjunto arquitetônico e que dia após dia deixam tombar para não cair as suas camadas de pele, foram listadas pelo Departamento de Patrimônio Urbano e Cultural da cidade como sendo mais de 600 (isso mesmo, seiscentos!) “monumentos de grande importância” para a cidade. Onde estão esses “monumentos”, amigo leitor? Em qual estado de preservação se encontram? Foram tombados? Revitalizados? Conservados? Ainda existem?

.

Já digo logo: não estou aqui fazendo defesa contra o progresso, longe de mim! Devo confessar sentir certa saudade de bondes sobre trilhos cortando a Lagoinha, mas fora isso acredito ser possível conciliar as necessidades da cidade de hoje com a preservação de patrimônios que têm incrustados em si a história da cidade. Basta um pouquinho só mais de zelo por parte do poder público...

.

A Lagoinha sofre o desmazelo da Lei porque é mãe desafortunada que tem, na madrugada, os seus filhos queimados. Pararam um carro ali no Bonfim e tocaram fogo em seu Osvaldo, igual fizeram com o índio Galdino em Brasília, lembra? Ele teve o corpo setenta por cento atingido por chamas mas sobreviveu e continua morador de nossas ruas, de volta ao nosso convívio. Mas tem cravada no corpo a marca de uma humanidade que queima gente.

.

Com a duplicação da Antönio Carlos, centenas de seus osvaldos habitam agora a Rua Itapecirica, marginais aos proclames de uma cidade que expande seus asfaltos. Toda vez que olho para eles ali, quando subo a Itapecirica, vejo refletido em seus olhos a história da Lagoinha, um bairro histórico transformando-se em ruínas. Sendo derretido. Um bairro com o corpo em chamas, como o de seu osvaldo. Quem vem apagar esse fogo?

.

(foto de Gabriel Zupo)
,

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

.
a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu a gente vai contra a corrente até não poder resistir na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há

mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá
.
roda mundo roda-gigante
roda-moinho
roda pião

tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu

(cb)

domingo, 16 de agosto de 2009

.
.

.
os cabos estão proibidos para escaladas. tome as trilhas de pedras laterais. saiam daqui agora, vou ligar para a polícia. este trabalho é estressante, não? sim, muito, estou aqui desde ontem. ninguém vem tomar o seu posto? sim, mas ainda não chegaram, sigam pelo parque e retornem por aqui. inverno, mas amarelos os ipês apontam a primavera do alto. há vozes. elas fazem com que você se faça muitas perguntas. quem é você, o que faz, o que é, como se sente, o que pensa do mundo? parlatórios, idéias gerais, conceitos, a morte dilui tudo. h1n1 torna mais esdrúxula a existência. menos poético do que morrer de amor. mais crua e visceral do que morrer de fome? h1n1 não tem classe nem cor e por isso repercute um poquito más. quem propaga a gripe, los mexicanos, el viento, el medios de comunicación o los laboratórios? em saramago a catástrofe é mais palatável: literária. quisera fosse apenas. não esperam que você responda, não esperam respostas, apenas a sua adesão. e nem somos capazes de romper, embora quiséssemos somente fingir pertencimento, participação. preciso fazer xixi. um sol? um peso? um real? um dólar. donde vives? lhe dirão que o lago é cinematográfico [mas nenhuma palavra para revelar o efeito perverso da mineração] a bandeira está posta no chão, feita assento. eles podem se zangar! eles querem que fique tal qual foi educada para sê-lo, mecanicamente. não queira se ver de fora, não queira... estão agora com seus rostos sorridentes. mas atentos! lhe seguram pelas mãos e te conduzem (rumo a?) que mãos quentes eles têm... leito branco de hospital, cama macia, oxigênio farto. - mas não quero morrer aqui! eles o tomam pelos braços. - não quero morrer aqui. eles ouvem o rugir da morte e a alastram em rede nacional. (- não quero morrer aqui....) à sua esquerda seus entes queridos usam máscaras e sentem o hálito da morte. [não quero morrer aqui], em túmulos coletivos tal qual na idade média. a pós-modernidade há de ter servido para alguma merda, não? nem para livrarmos-nos das tumbas sem nomes? e ali está seu amigo, e ali está seu amado, do outro lado. estão apoiados em você, escorados em sua miséria, temendo o absurdo tamanho do nada. - mas eu não quero morrer aqui... espere! como a cidade é linda vista desta serra... deixe-me senti-la, deixe-me respirá-la pela última vez. qual era mesmo o nome da cidade antes de se tornar belo horizonte? serra do curral. ha ha ha. acho graça, acho poético. daqui de cima estamos livres da gripe(?) e quem sabe qual caminho faz o microscópico ser? espero não ser um fardo muito muito doloroso para todos... há um poço abissal, azul anil, cheio de larvas, explodindo em seu peito. um homem surge sujo de minério, sinistro. se eu tivesse seis quilos a menos, diz, teria morrido hoje. havia a dor, o cheiro da morte exalando dos seus poros. silêncio, reverência ao seu quase-fim. depois, depois o trágico faz-se cômico: gargalhada. escapa (ele) da linha transparente. ainda pensa, ainda existe. logos. respira um ar viciado de bactérias. grita quando se distancia. júbilo por ter superado as pedras. júbilo. você acredita em deus? - espero para ver se ele existe. terá que descer a serra e beijará com afeto o vidro do aquário do peixinho de estimação. está subindo, ainda. ascensão laboriosa. mas está livre da escalada, agora a montanha fora desvendada. ele a escalou. e o peixinho jamais saberá de nada. nem deus. passou tanto tempo olhando para cima, e agora pode olhar para baixo, para a cidade, deste lugar alto. é o maior dos seres do mundo. maior do que deus, que não sabe nem de perto o que é estar com a pele grudada no corredor da morte. grande panorama Dela, cá do alto. minhoca grudada na casca dura da Terra. Terra: tudo o que existe. e o dasein: trepadeira (parasita ou simbiótica?) do alto de montanhas, colado à gravidade, mais perto da lua, o Ser. e do sol, que já queima a pele [cuidado com a exposição abusiva! há também o câncer!] tudo é poeira, mas 2010 é ano de politiké tecnhé. então,
.
. .

.

domingo, 9 de agosto de 2009

.
ilha grande. rio.



(seres encantados que habitam a ilha...)
















(o habitar dos seres...)












.
.
ilha grande me remete a ramos, em memórias do cárcere. um paradoxo. estão lá os escombros marcados na areia, lembrando-nos o terror da nossa história...

"Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem: fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar um pronomezinho irritante, embora se façam malabarismos para evitá-lo. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração. Além disso, não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei as discussões, esconder-me-ei prudente por detrás dos que merecem patentear-se" (graciliano ramos).

mas há de ser possível...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

o dia se divide em dois
e os corpos
colados em espiral
deixam o tempo diluir o ralo da memória.

qual memória?
_ qual razão imprime a fórmula do desejo?
uma melodia, por favor - traga-a dos escombros.
uma melodia para despir o silênciocioso.

enquanto o amor dorme vestido de moleton,
enquanto as mãos do amor pulsam nos pés,
desvio, desvio.

deixe o mundo na fila, lá fora, gritar o tédio.
deixe o tédio na fila gritar o mundo
deixe lá fora o mundo o tédio
gritar gritar
enquanto o amor dorme esparramado no afeto.

cadê a chave que tranque o amor do mundo?
jogue-a pela janela.
basta aqui, neste habitar, o olhar
.
sombra
o olhar folha
o olhar árvore.
.
basta, para que o infinito caiba nesta cama
e seja a distância nula dos corpos
colados em espiral.
.
basta, para que não haja mais filosofia
só rendas.
.

domingo, 19 de julho de 2009



(enquanto ouço jóga, bjork) barulho de homens bêbados no térreo invadem a janela e rompem o sono no oitocentos e dois. a madrugada se acende antes das cinco. turbulência. o afeto está nas nuvens mas o avião ameaça cair. o longo corredor não tem saídas. área de instabilidade: aperte o que sentes! adentra pela porta o mundo, invade o isolamento do afeto: acusa. por favor, deixe o amor a sós, trancado no encantamento, esquecido do tumultuado asfalto. o afeto abarca a tortuosa certeza – nenhuma resposta brota da boca, só sussurros e salivas em beijos lascivos, manchados de mar. o vento nasce do olhar. da transparência brota um castelo. prostra-se a cidade abaixo dos corpos. cem anos passarão enquanto esta cama quente range. o universo gira para dois. o sol queima todos os planetas. as células incrédulas derretem-se: alarga o devaneio. um dia não cabe dentro do peito. faz-se necessário mais: o infinito. ACREDITE: oh, céus, em que? a verdade se prostra de quatro. se rende. se despe. só resta a relatividade. não há maturidade, mas a fruta pode de verde cair podre se não devorada a tempo. deixe que esta visão de domingo abarque todos os rótulos dos dias de feira. deste momento lindo, da janela em que os primeiros raios assolam as estrelas. elas se sabem eternas mesmo na ilusão da claridade dos dias? há lógica no tempo? insite do primeiro momento: pausa do movimento. ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar. há uma terceira e quarta perna que pesa em cima do corpo. quando disser já, balé sem ensaio. o oceano está contido na pupila dilatada do outro. invasões bárbaras declinam o império americano mas antes do amanhecer ainda há um segundo de conforto: velar o sono do amor. ouvir as gotas do transbordamento. então come chocolate, pequeno, porque não há metafísica maior no mundo. vinho às seis, em nome do (en)canto. socorra-me hilst, contra tanta bestialidade! mantenha-me insana para sempre, amém. a dádiva loucura. cuspir em toda insinuação. quebrem o protocolo, por favor, antes do fim do espetáculo. descosturem as cortinas. suspendam o álcool, antes que se firam, esses pobres tolos. e matem ainda mais. antes que eles mesmos se matem. mas tragam dos escombros um pouco de música, por favor. porque assim seca a realidade é por demais cruel! bjork, por favor. obrigada. agora sim: o avião pode cair. estou com os pés fixos no chão, mas as rachaduras brotam das bordas do planeta. a esfera terrestre se abre. talvez haja tempo de um flamboyant furar o solo. sim, só por mais uma vez, esta ilusão de ótica. vermelho, o flamboyant. pra aliviar este deserto de cores. não trema, amor! revisão da língua livrou-nos de tantos acentos. então não trema! ainda estou aqui. confie: o sol pode ainda nascer neste nosso oitavo amanhecer.

domingo, 12 de julho de 2009

.
há uma dor na felicidade, um estrangulamento, uma percepção da transcendência que oprime o corpo miúdo. é mais fácil permanecer na solidão do que no amor. na solidão o refúgio em alcoóis torna mais brando os dias, menos reais, mais fáceis de serem empurrados na ostração. no amor não. o amor traz a realidade da lua. e ela está ainda imensa no amanhecer da noite, cúmplice dos lençóis, ao lado das nuvens. e oprime um coração pequeno. o amor, encarnado no corpo, exige o ato de amar. amar dói. dor muscular, de coração, dor circular, de coração, dor rubra, de coração. é verdade manifestada no reflexo do olhar alheio. e a verdade redefine a pele. quer acordar consubstanciada no oceano encarnado nas águas do outro. um outro metade. um outro duplo de si. o amor quer viver debaixo d'água, sem respirar os dias, viver de forma líquida, mergulhada em pele horizontal. exige criação. faz os olhos acesos brilharem, as mãos fechadas se abrirem, as pernas cruzadas cederem, a boca faminta embebecer-se, os poros florescerem. o amor toma a forma do ar e se incorpora no vácuo, traz a dimensão da integralidade do espaço, não resta ocaso. é batida de bossa nova, orquestra de sensações. o corpo faz-se corda de violão p'ros dedos comporem sons. o amor parece menor quando não existe. e ser parece infinito depois do amor firmar-se. agora a eternidade existe. a alma existe. até deus pode voltar a existir: ele está perdoado! o amor é a negação do que não existe. a imanência. a extensão em fá, é o ser mais um. sinal de multiplicar. prato na mesa em dobro. e o medo da morte, infindável, parece até sumir. toma a forma dos olhos. abre-se o mundo. há redefinição do tempo. negação do tempo. não há mais tempo. só sucessão de estalos no peito, em tons aleatórios, susto contínuo para quem tem o músculo central exposto. uma noite inteira de olhar basta para renascer. depois, um domingo de febre. o olhar sem voz, o olhar silêncio, estendendo-se pela longa madrugada até transmutar-se em sol. depois, um domingo de febre. como deixar os olhos pra trás? um domingo em febre. o mundo espera quinze dias para reencontrar-se. e os olhos surgem novamente, agora muito próximos da retórica da sedução, da extensão do corpo nu. mas o olhar continua lá, como ponte de conforto, reflexo do primeiro toque, como potes de mel. pronto. não há mais ninguém na noite. não há mais noite. não há mais qualquer mais. apenas um outro que elimina a possibilidade de isolamento. um outro que suga a individualidade. a vestimenta. o universo confirma-se redondo na dialética do ato amar. sim, de novo a dialética aparece, meu caro geo! a dialética presente na geografia do amor. amar deixa o que é meu tornar-se theu. o outro é a negação das paredes. elas eram altas, torres de ilha grande. lábios nos olhos rasgaram os segredos. agora já não há mais parede nem solidão. o amor tomou a forma da vida. chegou vestido de chapéu e sobretudo. a porta escancara-se. o amor conforta as crises das madrugadas e vigia os movimentos noturnos. é ser literário. e quando canta abafa qualquer entendimento. não resta mais razão. somente olhos cantantes. tem a forma de árvore. será plantada, regada, cuidada. há grande chance de que o amor seja este pedacinho de terra simples, surgida para abrigar esteiras pra sentar e contemplar estrelas. há desejo de compartilhar um céu. este desejo é novo. é potente. desejo de comunidade e solitude.
.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

.
ser-tão debaixo d'água:
solitude a dois...

[ainda bem que Aristóteles inventou a alma!]
.
.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

tupi or not tupi that is the question oswald de andrade

quarta-feira, 1 de julho de 2009

1.7.09. uma lógica para o caos, por favor... um sete zero nove comprimidos para conter o sonho. sim, pode ser. dois? um sete zero nove. vermelhos. antiácido e antifebril porque a loucura tomou o corpo dessa pequena moça. vive agora sonhando com árvores, sombras e ipês, é só nisso que essa pobre tola pensa. hum. 1.7.09. e se tiver também algum que faça o coração mais manso, menos rebelde, bota logo três. um sete zero nove. porque parece que o peito de tal danada anda pulando e torcido. é bom ficar prevenido. tá formado um tufão de sentimento. ela bebe água pra espantar o calor, mas no sol dessa terra deus abana o que o diabo ferve. 1.7.09. ela tá com os miolos quentes. dê-lhe logo um sete zero nove banhos de água corrente e tira esse pano do pescoço dela, que só anda embrulhada - neste calor! - essa tal menina. parece que agora crê no que não existe! dá um chá de realidade nela! 1.7.09! pra vê se acorda e vai trabalhar. dê logo, antes que este fogo tudo queime. voltou assim, pobre coitada, desse são joão. e só pensa agora em voltar pro sertão. e fazer cinema.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o eterno retorno presente nesta cidade, mais do que em qualquer outro ponto do planeta. por ser uma cratera aberta? por ser um vulcão em repouso milenar? por ter este céu de estrela que cospe ondas do caos? está aí, esta mesma noite lenta, fria, melancólica, poética de quintal. estava lá, nos corpos, na coletividade, no trânsito morno dos membros, na pulsação dos olhares, no infinito de possibilidades, na película que aqui e ali se produzia, na música que se compunha. em momento de tensão a velha retórica da verdade aparece e assombra, assusta, constrange. a palavra pode ser de morte, então não fale. noves fora zero, o olhar permanece como melhor instrumento, o instrumento da sutileza, da delicadeza, do afeto. no silêncio o retorno se completa, no silêncio talvez haja alguma salvação. na palavra não. só na poesia. na palavra não. cinema mudo, sim, cinema mudo - papalo e carlitos bem o sabem e anunciam. além do bem e do mal, o caos fecha os olhos e sorri, "quão bobas são essas crianças"... enquanto num quartinho negro dois palhaços compartilham confidências. não reconheço quem poderia categoricamente afirmar qualquer coisa. atitude mais autêntica? o niilismo serve? severidades... é possível salvar-se? o barco estende-se no mar deste sertão e à bordo as vozes se tocam. se roçam. sexo? ainda não. é cedo para nós. é tarde para os outros. e enquanto as pernas dão passos em qualquer direção, um céu, repito, o céu, ou melhor, este mesmo céu, que já no primeiro encontro do universo com o ser se fez e vingou acima e abaixo deste pequeno grupo que formado na eternidade, nesta noite se estendeu, esta mesma noite projeta o que poderá, a partir dali, se firmar. e enquanto eu não te alcanço, enquanto eu não te alcanço, dentro do peito arde em febre a dialética do amor.
amanhece o dia na cidade cheia de céu e em cada plano do olhar uma gota de desejo [dia de fogos, de festa, de seu joão] tanta trama por um gesto... e o dia do fim vir pode antes do re-começo. então chega em silêncio, para que não se sinta, para que não se perceba este contemplar perdido no salão, esta noite imensa, este passo torto, este xote lento, peito sem ar, garoa fina e fria de solidão. não há pressa, mas sopra o vento e nenhuma vida nova trará esta mesma forma de ser, então chega devagar [mas chega], que é p'ro peito não transbordar porque esta sua maneira de estar e esta minha forma de querer podem se perder, não são de se repetir. olha com olhos de deserto e silêncio tumultuado do pacífico, tira do náufrago corpo esta roupa molhada, envelhecida de si [se liberte de todo sal] pousa aqui, neste sertão e acende uma fogueira sobre esta terra de urucu. permita. porque o fim pode raiar e tomar jeito de cinzas. então deixa [vir] este estado de amanhecer.